
Interesses Peculiares
Um pouco hesitantes, Emma, Athert, Elron e Adrielyel, seguiram Verônica pelas ruas de madeira artificiais que se elevavam acima da água do lago que ficava logo abaixo de seus pés. Eles não estavam muito felizes em se afastar da parte da cidade que estava em terra firme, já que, em um ambiente como aquele, todo lugar pode ser o lar de algum monstro ou fera, e a água, naquele caso, era o habitat natural de muitas das criaturas viventes do pântano.
Emma liderava, indo na frente, logo atrás, em ordem, vinha Elron, Athert e Adrielyel. Mesmo ali, aparentemente segura com uma poderosa “aliada”, Emma sentia um certo medo, tanto por estar em um local novo e desconhecido por ela quanto pela diferença enorme de níveis entre ela e os outros cidadãos da Vila Wamol, o que a fez pensar se realmente deveria estar ali.
Depois de mais um tempinho andando, Verônica parou sem avisar, fazendo com que Emma tivesse que avisar aos demais que eles haviam parado para evitar uma possível colisão.
– Chegamos! – A mulher de vermelho anunciou, virando-se para eles com um sorriso no rosto.
A construção na frente do grupo era pequena, mas um tanto diferente das outras que estavam por ali. Também era perceptível que o lugar era bem mais organizado e limpo do que todas as outras construções, que sempre estavam mal construídas ou imundas. Se um deles tivesse que chutar, aquele deveria ser um lugar de grande importância na cidade para ser tão bem cuidado daquele jeito.
– E onde necessariamente chegamos? – Emma perguntou, ainda um pouco desconfiada.
– Minha casa temporária. Aqui em Wamol não existem hotéis de qualidade no mínimo aceitável, então eu mandei aqueles brutamontes construírem essa pequena cabana pra mim.
– Me impressiona o fato de você conseguir mandar neles. Não parecem nem um pouco amigáveis, muito menos prestativos. – Athert comentou.
– E não são mesmo. O único jeito de você convencer esses sem cérebro é pelo dinheiro ou pela força. E acho que nem preciso dizer que não paguei um tostão pra eles, né? – A Bruxa explicou, rindo baixo. – Enfim, vamos entrar logo. O exterior é cheio de insetos, e odeio essas coisas. – Ela tomou a iniciativa, subindo os degraus da pequena escada que separava a casa das tábuas de madeira do chão onde eles pisavam.
Os ladrões se entreolharam, balançando a cabeça simultaneamente, concordando que entrariam ali.
Adentrando na casa da bruxa, foram surpreendidos pela decoração, que estava muito acima de qualquer padrão daquela vila, que pouco se importava com a beleza de suas construções. Uma mesa de centro com um vaso tendo belas flores em seu interior, cadeiras e outros móveis ornamentados. Uma estante de livros tão limpa que chegava a impressionar. Do lado direito, uma porta, que provavelmente levaria para um quarto ou algo do tipo.
– Sejam bem vindos à minha humilde residência! Não liguem pra bagunça, eu cheguei faz 2 dias, mas não tive tempo para arrumar a casa direito, então me perdoem por isso.
– Ah… não precisa se preocupar com isso. – Elron disse, um pouco impressionado com a afirmação de Verônica.
– Enfim, sentem-se, eu vou buscar uma coisa para bebermos, desejam algo em especial?
Nenhum deles disse nada, apenas negaram com um gesto e sentaram-se à mesa. Por um breve momento, Verônica sumiu, no entanto voltou, carregando uma taça cheia de um líquido vermelho na qual os outros imaginaram ser algum tipo de suco de fruta ou algo do tipo.
– Bom, crianças, digam-me o que vieram procurar aqui. Gyleon me enviou vocês, mas ainda não sei quais são suas intenções.
– Não havia dito que sabia o que Gyleon queria que fizesse conosco? – Adrielyel questionou.
– Sim, e quando disse isso quis dizer que provavelmente ele queria que eu cuidasse de vocês. No entanto, apenas trouxe vocês até minha casa, agora estou aqui, esperando vocês dizerem o que querem de mim. – Verônica disse em resposta, dando um gole na taça.
– Queremos subir de nível o mais rápido possível. Depois, quando estivermos em um bom nível, queremos que nos leve até Edheglast. – Emma disse, ajeitando-se um pouco na cadeira.
– Então vocês vieram para o lugar certo. O Pantâno esquecido é umas das 7 áreas de caça existentes em Yharag. Vocês irão subir de nível rápido aqui, se fizerem uma boa caçada e matarem os monstros certos, é claro.
– Áreas de caça? – Emma questionou, um pouco perdida sobre o tema.
– São locais no mundo onde há várias espécies de monstros reunidas. Dá pra ganhar uma boa quantidade de Exp matando monstros nelas. – Athert explicou.
– O menino demônio está certo. – A bruxa disse, tomando mais um gole. – Agora, quanto à Edheglast, só vou voltar pra lá quando tiver o que vim buscar.
– E o que é que pode te faltar que tenha feito você vir a um lugar como esse? – Elron Indagou.
– Vocês viram aquele crânio na entrada da Barriga da Besta, certo? Aquela caveira é apenas uma decoração, então é impossível saber muito sobre ela. No entanto, se você perguntar para um NPC aqui da vila, que sempre vive dentro do bar, ele vai dizer que aquela cabeça pertencia a um dragão do pântano
– Dragão do pântano? – Todos perguntaram, quase que ao mesmo tempo.
– É um animal raro que se esconde nas águas turvas e lamacentas do Pântano Esquecido. Segundo o NPC, existiam dois deles, mas um foi caçado e morto por um grande herói, e sua cabeça foi dada para o povo de Wamol. Hoje em dia, só resta um da espécie, e dizem que ele habita no canto mais profundo e isolado do mangue, misturando-se à paisagem para não ser encontrado.
– E o que diabos você iria querer com um animal desses? – Athert questionou.
– Seus dentes. Dizem por aí que os dentes de um dragão do pântano são extremamente afiados, capazes de cortar até mesmo o metal mais resistente que existe em Yharag, que é o Iridio Celeste. Se eu tivesse coisas como essas, as minhas garras seriam capazes de cortar a pele humana e outras armaduras como se fossem manteiga!
– Falando nas suas garras, que tipo de classe você é pra usar essas coisas? – Emma perguntou, curiosa.
– Sou uma Maga de Sangue, raça exclusiva para vampiros.
– V-Vampiro?! – Adrielyel falou, surpresa e com um pouco de medo.
– Claro, o que você achou que eu estava bebendo esse tempo todo? – Ela disse, erguendo a taça e mostrando o pouco que restava do líquido avermelhado.
– Vampiros… sub-classe dos demônios. Como o próprio nome já diz, eles se alimentam somente de sangue, seus atributos abaixam em 50% quando expostos à luz do sol e aumentam em 25% quando é escuridão total. São tão hediondos e odiados pelos jogadores que poucos se atrevem a pegar essa raça, ainda mais com a classe dos Hemomagos, que são os magos que utilizam do sangue para fazer sua magia. – Athert falou, um pouco desconfiado.
– Bingo! Você é muito inteligente e conhecedor deste mundo, garoto demônio! – Verônica disse, dando um último gole em sua taça, lambendo os lábios, mostrando brevemente seus grandes caninos .
– Meu nome é Athert…
– Agora entendo o porquê daquele cara do bar ter tanto medo de você. – Emma disse, também ficando desconfiada.
– O que foi? Agora vão ter medo de mim também? Não que eu me importe com isso, é que isso pode dificultar as coisas daqui pra frente. Apesar da má fama de minha raça e classe, eu sou uma vampira do bem, entende? Só bebo sangue de animais e, geralmente, uso esses frascos de sangue que coleto dos mesmos animais para fazer minhas magias. – Verônica explicou, tentando tirar a desconfiança dos jovens.
– Bom, isso não importa. Seguinte, façamos um acordo: você nos ajuda a subir de nível e nós te ajudamos a caçar o dragão, que tal? – Emma ofereceu.
– Temos um acordo! Beleza, primeiro temos que sair da cidade, não vamos encontrar os monstros mais próximos de seus níveis por aqui, então me sigam, vou leva-los até o barqueiro, ele vai nos deslocar para a área de caça. – A vampira disse, levantando-se de sua cadeira, colocando a taça sobre a mesa.
Sem dizer nada, o grupo inteiro se levantou, esperando Verônica sair pela porta da frente para que eles pudessem seguir-la novamente.
Depois de um tempo andando, todos eles chegaram ao pequeno porto da cidade, que estava consideravelmente cheio, com vários barcos, cheios de pessoas e mercadoria. Verônica foi até um dos barcos que estava um tanto cheio, abrindo caminho entre as pessoas, que se afastavam dela com medo. No momento em que chegou perto do barco, as pessoas que estavam lá dentro saíram imediatamente, como se fossem formigas fugindo de um formigueiro sendo atacado por um predador muito perigoso.
– Acho que encontrei um vazio! Podem vir! – Ela chamou os jovens, tentando parecer cômica.
Não conseguindo segurar a risada, Emma riu baixo, escondendo o sorriso com a mão. Entraram no barco e sentaram-se nos bancos que tinham ali.
– Acho que ser temida assim tem suas vantagens! – Ela disse para Verônica, que sorriu quando ouviu.
– Certamente tem, mas também tem suas desvantagens. Por exemplo, nunca tenho companhia quando vou pra algum lugar, então é um tanto prazeroso ter vocês me acompanhando por aqui.
– Não é como se tivéssemos escolha, né? – Athert disse.
– Cala a boca Athert, já vimos que ela é uma pessoa legal e que pode se confiar.
– Foi mal, mas não tenho uma boa experiência com vampiros…
A única reação de Verônica foi sorrir para o garoto, mostrando os dentes inevitavelmente.
Enquanto o barco deles saía rumo à zona de caça, do outro lado da cidade, duas pessoas misteriosas entraram no bar. A reação dos cidadãos foi a mesma de quando o grupo de Emma adentrou lá, com Reinald indo para perto deles de forma ameaçadora. Os recém chegados, apenas olharam para ele, com indiferença, mesmo que suas expressões não pudessem ser vistas.
– Qual é a dessas máscaras e essas roupas esquisitas? Perdi alguma festa fantasia?
– Onde está Emma Adams? – A mulher perguntou, olhando diretamente no rosto de Reinald com sua máscara de Aranha um tanto diferente, totalmente pálida e com os olhos desenhados azuis.
– Emma quem? Mocinha, não é como se lembrássemos de cada um que passa nessa cidade.
– Mesmo? Então você é inútil, morra. – Ela concluiu, erguendo o braço. De suas vestes, uma grande pata de aranha saiu, atravessando o peito de Reinald, empalando-o.
Todos no bar ficaram amedrontados, não acreditando no que tinha acabado de acontecer.
– Irmã, você não precisava ter feito isso… – Disse uma voz masculina por trás da máscara de tigre.
– Precisava sim, ele não era útil, então deveria morrer, lembra como te ensinei? – Ela disse em resposta, retornando o seu braço de aranha. O corpo de Reinald caiu no chão. Do buraco em seu peito, uma enorme quantidade de sangue espirrava e manchava o chão.
Os homens pararam de beber, pegando suas armas e indo pra cima dos dois mascarados na intenção de matar.
– Bem, vamos acabar com eles! – A Menina com máscara de aranha abriu os braços, fazendo sair debaixo de seu manto seis patas de aranha grandes, prontas para estraçalhar todos eles.
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