CM: Capítulo 14


Caminho de Volta


– É melhor não me deixarem cair – disse Xi se posicionando para a decida – Ou eu volto para assombrar a vida de vocês – Então ele pulou dando um puxão nos quatro alunos que o seguravam. 


  As botas de Xi deslizaram pelo paredão molhado do precipício fazendo com que ele descesse mais do que queria de inicio. Ele manteve uma mão agarrada a corda improvisada e a outra no paredão se movendo com cuidado enquanto os alunos na trilha o desciam cuidadosamente. Logo ele tinha descido cinco metros, e então chegou a sete e antes que se desse conta já tinha passado a metade do caminho.


  As vezes ele olhava para baixo e via En caído em uma possa de água acumulada, mas não dava para ter certeza da condição do jovem. Quando olhava para cima ele via uma vez ou outra os disparos de enerjom das alfings que eram acompanhadas pelo rosnar dos Gatos das Montanhas que para desagrado de Xi se encontravam cada vez mais perto.


  Quando enfim chegou ao vale o jovem Bronze desamarrou sua capa se libertando da corda improvisada e se agachou ao lado de En. A lateral do rosto do jovem estava coberto de sangue e sua perna direita estava inclinada em um angulo estranho, mas agora que Xi estava tão perto ele conseguia ver a respiração do garoto. Seguindo os ensinamentos básicos que tinha recebido nos últimos dias da equipe medica na caverna o jovem Xi se inclinou sobre En passando as mãos pelo corpo do jovem, primeiro pelo rosto onde viu um pequeno corte na testa. Depois ele foi para as costelas verificando se alguma estava quebrada o que dificultaria em muito o resgate. Em seguida ele foi para os braços e descobriu que o ombro direito do jovem estava deslocado. Xi pensou em colocar o ombro no lugar, mas lhe faltava experiência para isso. Então ele foi verificar as pernas do garoto, a esquerda estava em perfeito estado, mas a direita estava quebrada e ele conseguia ver o osso saltando para fora da calça.


– Como coloco isso no lugar? – se perguntou Xi com as mãos esticadas em direção a perna de En, mas sem toca-lo. 


– XI? – Gritou o Instrutor Mor – COMO EN ESTA?


– BRAÇO DESLOCADO E PERNA QUEBRADA! – respondeu o jovem, gritando para o Instrutor.


  Quando olhou para cima viu dois alunos disparando e Mor rapidamente erguendo sua alfings, mirando e disparando. O disparo do instrutor foi recompensado por um urro de dor quando a pata dianteira de um dos Gatos foi decepada pelo enerjom concentrado. 


– AGORA! ATIREM! ATIREM!


  Mor começou a gritar apontando para o Gato ferido. Os alunos não perderam tempo apontando suas armas e atirando no grande felino que foi feito em pedaços pelas múltiplas balas de enerjom. Xi sorriu aliviado ao ver um dos predadores sendo eliminados, mas o sorriso morreu tão rápido quanto nasceu quando ele viu o ultimo dos Gatos deixar a proteção das pedras e correr em sua direção como um borrão. Se Xi estivesse certo, todas as armas na trilha estariam recarregando nesse momento, ou seja, ninguém poderia cobrir ele. 


  Desesperadamente Xi puxou a correia de sua alfings apontando a arma para o grande felino que cobria a distancia entre eles rapidamente. Mal o jovem posicionou a arma e o Gato já estava sobre ele. Xi disparou no mesmo momento que uma gigantesca pata vinha em sua direção acertando-o na cabeça e jogando-o para trás. O jovem Bronze se chocou contra o paredão atrás dele deslizando de costas até ficar sentado. O ar lhe escapava dos pulmões e sua cabeça latejava muito. Lentamente sua visão foi escurecendo e a única coisa que ele ouvia era o som da chuva caindo sobre ele.


***


Eu morri?


   Foi o primeiro pensamento que veio a mente de Xi quando ele despertou. Sua cabeça latejava muito e suas costas estavam doloridas. Quando abriu os olhos se deparou com o teto mal iluminado de uma caverna, mas não a caverna onde estava a base deles já que essa era consideravelmente mais baixa.


– Finalmente você acordou.


   Xi virou lentamente a cabeça quando ouviu o sussurro ao seu lado e encontrou Ling sentada com as pernas cruzadas olhando para ele.


– O que… – começou ele a dizer,  mas as palavras morreram em sua boca antes que ele pudesse terminar as frase. Uma dor terrível se espalhando da base do pescoço até a nuca.


– Beba um pouco de água – disse Ling lhe entregando um cantil – Você ficou um bom tempo desacordado.


– Como… Como estou vivo? – conseguiu perguntar Xi.


– Sorte – reverberou a voz de Mor se inclinando sobre o Bronze – o seu disparo desesperado acertou dentro da boca do Gato,  matando-o antes que ele te matasse.


– Mas como o Gato já tinha saltado você acabou recebendo o impacto do corpo dele – Completou Ling lançando ao Instrutor um olhar desaprovador por alguma razão que Xi desconhecia. 


– Seu elmo foi destruído e você ficou com um pequeno corte na testa – comentou Mor – Nada sério.


– E En?  – conseguiu perguntar Xi quase engasgando com as palavras. Sua voz saia rouca e arranhada.


– O garoto da classe B? Esta vivo. Uma perna quebrada e um ombro deslocado, mas fora do risco. Coloquei o braço no lugar quando desci para pegar vocês e fiz uma tala para a perna com a bainha da espada dele – Mor olhou pro lado e Xi pode ver outra pessoa deitada bem perto dele com um pedaço de pano amarrado na testa – Descanse um pouco, jovem Xi. Quando a chuva passar voltaremos para a base.


   Enquanto descansava o jovem Bronze conversou com a bela Prata para passar o tempo. Ele descobriu que após ser nocauteado pelo Gato das Montanhas e perder a consciência os alunos na trilha tinham entrado em um alvoroço. Bo e Ryu estavam quase duelando para ver quem iria descer em seguida quando Mor os separou dizendo que ele mesmo ia descer. O Instrutor rapidamente e com eficiência desceu a encosta, verificou o estado dos alunos e aplicou os primeiros socorros nos dois. Depois ele amarrou En primeiro para ser erguido até a trilha. Em seguida mandou os alunos puxarem Xi enquanto ele esperava para ser erguido logo após isso.


   Depois disso o Instrutor Mor começou a guiar os alunos de volta para o acampamento na caverna, mas a chuva estava tão forte que ele resolveu levar o grupo de patrulha até uma pequena caverna para se abrigar da tempestade.


– Se preparem ! – ordenou Mor voltando para dentro da caverna, sua voz reverberando pelas paredes de pedra – A chuva está diminuindo. Vamos seguir rapidamente em direção ao acampamento. Wei e Bo vão carregar a maca improvisada de En.


   Ele então olhou para Xi com uma pergunta silenciosa estampada nos olhos.


– Posso acompanhar – disse o Bronze se levantando com dificuldade.


   Mor assentiu para ele e voltou a dar as ordens informando onde cada aluno estaria na formação. Weie Bo estariam no centro da formação carregando o ainda desacordado En, e Xi estaria logo ao lado deles com Ryu para ajuda-lo caso ele não aguentasse a marcha. Mor lideraria o grupo com dois alunos a frente e três na retaguarda. 


   Quando Mor viu que seus alunos estavam prontos ele os guiou para fora da caverna em direção a uma fraca chuva que rapidamente cobriu o grupo. Sem seu elmo o jovem Xi ficou desprotegido da chuva e com a visão prejudicada. Ele estava mais se guiando pelo andar do grupo do que pela trilha em si o que fazia ele sentir falta do elmo e do visor de enerjom que o ajudava a ver o contorno dos seres vivos mesmo com a forte chuva.


   O grupo de patrulha já estava nas trilhas labirínticas com paredes de pedra cercando os caminhos que seguiam. A água da chuva se acumulava sob seus pés fazendo os alunos terem muito cuidado para não escorregarem. Principalmente Bo e Wei que levavam En na maca feita com uma capa abertura presa pelas bainhas das almashas


– Alto ! – ordenou Mor erguendo um punho fechado e em seguida sacando sua alfings – Quem está aí?


   Os alunos rapidamente estacaram na trilha olhando assustados para frente. Alguns tiveram presença de espírito para puxarem suas armas enquanto outros simplesmente ficaram paralisados. A experiência com os Gatos da Montanha ainda estava muito fresca na mente de cada um deles.


– Calma, Mor! – veio uma voz de algum lugar a frente – Tatua pediu para que procurássemos por vocês.


– Essa voz… É você Douki? – perguntou o Instrutor baixando sua arma – O que diabos você está fazendo aqui?


– É uma longa história – respondei Douki surgindo mais a frente de dentro da chuva.


   Seguindo a figura de Douki vieram mais alguns homens e mulheres uniformizados com o uniforme de soldados em treinamento. Douki usava uma jaqueta pressurizada sob uma capa negra. Ele era claramente um aluno do segundo ano da Academia.


– Muita coisa aconteceu nas horas em que você esteve patrulhando – ele fez uma pausa olhando para o grupo atrás de Mor – Parece que vocês também tiveram problemas. Alguma fatalidade ?


– Foram só alguns Gatos das Montanhas e a droga dessa tempestade. Tivemos dois feridos.


   Após uma rápida troca de palavras os dois grupos voltaram para a caverna com os soldados em treinamento cercando o grupo de Mor. Xi olhou em volta contando pelo menos dezessete soldados. Quase uma unidade pessoal de vinte homens o que faria de Douki um Tash em treinamento.


   Quando chegaram na caverna a entrada estava sendo vigiada por quatro soldados em treinamento no lugar dos alunos da Academia. Douki cumprimentou os homens e guiou os outros para dentro.


   Quando entraram na caverna os alunos do grupo de patrulha pensaram ter entrado em uma caverna completamente diferente, tamanha era a mudança no lugar.


   Além dos mais de cem alunos o local estava apinhado de soldados em treinamento. Pelo menos uns cinquenta deles estavam reunidos em um canto da caverna e Xi não deixou passar despercebido que a maioria estava ferida. Homens e mulheres com bandagens cobrindo a cabeça e os membros estavam gemendo no chão enquanto outros com roupas rasgada e ensanguentadas cambaleavam de lá para cá com pratos fundo cheios com a sopa de Tatua.


   O próprio Instrutor Tatua conversava com outro Instrutor reconhecido apenas pelo modelo da roupa que usava. Além do Instrutor outros dois alunos do segundo ano estavam reunidos.


   Mor mandou o grupo direto para a equipe médica para que passassem por uma vistoria completa para ver como estavam. A maioria do grupo foi rapidamente liberado, mas Xi, Ryu e En tiveram que ficar por mais tempo.


   O caso de Ryu foi rápido com os médicos olhando rapidamente seu pescoço, que estava um pouco roxo onde a capa tinha se enrolado, em busca de alguma lesão séria. Xi passou por um exame mais intenso com os médicos observando a lesão em sua cabeça preocupados com algum futuro problema de visão ou de memória. Xi teve que responder a uma série de perguntas e fazer alguns exercícios básicos antes de receber uma injeção regenerativa e um atestado de que estava bem, mas que deveria tirar um dia de descanso.


   Quando chegou a vez de En ser examinado os médicos o cercaram como abutres, verificaram sua perna e seu ombro aplicando injeções com soros regenerativos. Mas no fim tiveram que engessar a perna do jovem para uma recuperação mais segura.


– Você está acabado – comentou Swam se aproximando ao lado de Buco.


   Xi sorriu fracamente para seus amigos enquanto se afastava dos médicos.


– O que aconteceu aqui ? – perguntou Xi apontando com a cabeça para os soldados em treinamento.


– Chegaram um pouco mais cedo – explicou Buco olhando seriamente para os soldados – Estavam fazendo treinamento de manobras aqui perto quando foram surpreendidos por um pequeno grupo de Ogros Furiosos.


– Predadores da Noite tão perto da Academia? O que a Guarda do Monte está fazendo ?


– Foi um grupo pequeno – falou Swam dando de ombros – cinco deles e a maioria bem jovens. Eles se encontraram ao amanhecer logo após levantarem o acampamento. Segundo o que ouvimos foi tudo um caos.


– Um dos alunos da Academia morreu logo no inicio – Buco apontou discretamente para os homens deitados – Sua unidade de treino quase foi dizimada. Aqueles três ali também estavam lá com suas unidades e por pouco não sofreram grandes baixas também.


– Pelo que entendemos… Foi o Instrutor Lou quem tomou a liderança do grupo praticamente sacrificando a unidade do aluno morto para salvar o resto e matar os Ogros.


   Xi olhou para o Instrutor que conversava com Mor e Tatua ao lado do panelão. Era um homem de estatura comum para o povo de Izar com os cabelos levemente grisalhos nas laterais. Foi nessa hora que ele percebeu a presença de Ryu parado ao seu lado em silêncio.


– Já falei com Wei e com Bo – Disse o plebeu – mas ainda não tive chance de agradecer a você, Xi.


– Eu não fiz nada – comentou o jovem Bronze pensando consigo mesmo. Bo tinha segurado a capa evitando que ele caísse e tinha sido a força de Wei que o erguerá da queda iminente.


– Você na verdade fez tudo – comentou Ryu como se lesse os pensamentos do jovem Bronze – Se você não tivesse me estabilizado depois que Bo segurou minha capa eu teria sufocado antes que Wei chegasse até mim. Ou como o próprio Bo disse, eu teria caído quando a força dele se esgotasse e Wei nem teria chegado até mim.


– Só fiz o que qualquer um faria.


– Nem todo nobre faria isso por um plebeu – Ryu baixou a cabeça sussurrando algo quase inaudível antes de cravar um olhar serio em Xi – E assim como disse a Bo, repito a você, estou em dívida com você e a pagarei nessa vida ou na próxima.


   Sem mais nada a dizer o plebeu se é virou e foi embora deixando os três jovens tentando entender o que tinha acontecido.


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